Agosto 14, 2008

“a última noite” – parte 6k

parte 4k

 

Assim que avistou da janela do quarto, o último de seus ajudantes domésticos indo embora, respirou fundo e fechou a esquadria. Ficou a observar o quarto relembrando tudo que já tinha vivido dentro daquelas quatro paredes: conversas, risos, discussões, solidão, silêncios, gozos.

 

Logo anoiteceu. E ela tomou um banho demorado, escovou os cabelos, se perfumou, e vestiu uma linda camisola de seda branca. Deitou-se na cama, acendeu o abajur e começou a ler esperando o sono eterno chegar, levando-a para sempre àquela última noite.

 

fim

Agosto 11, 2008

flash do acordar

k. sergio gomes

Acordar às 5h20 da manhã é de deixar muita gente de mau-humor. Mas não sou uma dessas. De segunda à sexta, junto com o cantar do galo do vizinho, me ponho de pé. Tomar banho e lavar a cabeça é lei para despertar. 6h30, pela janela do ônibus vejo a cidade abrir os olhos, preguiçosa.

Os raios ainda gelados do sol vão se espreguiçando pelos prédios, pelas pessoas caminhando e pelos carros parados no congestionamento. Num deles estou eu a observar, da privilegiada janela do ônibus executivo com ar-condicionado, todo esse acontecimento.

As pessoas dentro do coletivo aproveitam a lentidão da manhã para completar as horas mal dormidas à noite. Enquanto eu aproveito a janela para ver o espetáculo.

É divertido ver transeuntes caminhando com seus cachorros, que querem fazer xixi em todos os postes; duplas fazendo cooper nas calçadas ainda não movimentadas; padarias e bares de esquinas abrindo as portas para servir o café da manhã para os que já caminham atrasados de salto alto e terno, e pedem o pingado e o pão na chapa com pressa.

Os primeiros “bom dia” vêm acompanhado das buzinas. E aos poucos tudo que parecia estar em slow motion passa a ser comandado pela tecla fast forward. Os tropeços, entre quem corre para bater no horário o cartão de ponto e os que estão voltando para casa depois do cooper ou do passeio com o cão, se tornam inevitáveis. E tudo que era calmo… “Ei, presta a atenção por onde anda!”

Julho 9, 2008

Sinto entender…

Tramitar por bienais e exposições de “Arte recente” – aquela recém-saída do forno, para não nos prendermos em rótulos de correntes artísticas – é como sonhar acordado. Literalmente falando. Vê-se de tudo acontecer: formas amorfas ganham vida em uma mescla de cores surrealmente irreais; o lixo vira luxo sem se travestir de luxúria; o belo se desbela e interage com o público! E este sai sem entender nada, mas saciado de cultura. Ergue as sobrancelhas enquanto devora os folhetos-explicativos e raramente comenta algo. Se algum inculto admoesta que não compreende a grandeza da obra à sua frente, a resposta vem excruciante e veloz: “a Arte foi feita para ser sentida, não entendida”.

Sob este mote erguemos décadas de labor artístico e enchemos museus mundo afora. Vil é aquele que busca um sentido para um quadro, que deseja significado nos versos brancos do poema que lê. Basta sentir as pinceladas, mesmo que o conjunto delas forme um desenho disforme – ou quiçá multiforme – que você poderia reproduzir jogando um punhado de tintas para o alto (mas sem a grandiosidade do artista em questão!). Basta deixar-se levar pela cadência pungente das palavras ditas que não dizem nada. E quem tenta entender não entende de fato a Arte.

Essa verdade absoluta legitima – e força goela abaixo – qualquer tipo de devaneio pseudo-artístico. Torna a busca pelo Belo um exercício onírico de auto-sensação, no qual a mínima interferência do cérebro rui o nirvana criativo. Vai extraindo-se, assim, a famigerada técnica, buscando romper com a barreira do consciente que impõe ordem ao que supostamente deve ser caótico. No limite seca a Arte de si própria, criando músicas sem notas, quadros sem pinceladas e poemas sem palavras.

Precisamos sim entender a Arte. Porém, que tenhamos aprendido um pouco com a nossa Filosofia e não creiamos que seja apenas isto, que devamos apenas entender e ponto final. É preciso criar-se a coragem para desconstruir este sofisma por completo, ultrapassando a barreira da dicotomia “emoção-razão” e indo além. A lógica platônica não deve ser posta em prática aqui, pois ela só sabe apontar ou para as sombras ou para o corpo que as produz: ambos co-existem.

Ao longo da História da Arte já rompemos inúmeros paradigmas, derrubamos preconceitos, revolucionamos. Aprendemos que não há certo ou errado, mas sim diferentes perspectivas, diferentes espaços-tempos. E destarte, nos permitimos criar livremente. Livre até onde este dogma nos permite ir.

Bruno Miquelino

Julho 8, 2008

a c o r d a r t e

por K. Sérgio Gomes e Bruno Miquelino

Quanto mais eu penso, mais ideal o mundo fica, e mais longe fico dele. É como uma equilibrista. Pensando, subo os degraus da escada que me leva ao topo; e quando abro os olhos, me vejo na corda bamba. Ao olhar para baixo, vejo aquele mundo real, ou irreal, sendo distorcido pelo vento forte, que balança a corda, a fim de me tirar da fantasia. A cada balançada temo o chão sombrio abaixo de mim. Estico meus braços, procuro equilíbrio, sinto um temor com sabor de prazer ousado inundar meu corpo. A corda balança violentamente como um touro selvagem querendo expulsar seu inimigo de cima de seu lombo. Agarro-me na beleza do mundo que tenho sobre minha cabeça, infinito ante meu tamanho; porém a cada degrau a corda afina-se e o vento irrita-se e desafia-me.

Fecho os olhos. Forte. Cada passo tem que ser metricamente calculado, dado com veemência e delicadeza. Com os olhos fechados, só vejo o fim da corda. Ali, a possibilidade de um mergulho num mundo onde a juventude não precisará de um quadro para se eternizar. O tempo passará ao meu comando, devagar nos bons momentos e veloz nos que não me agradarem. Oououuouououohhhhhhhhhhhh. O vento traiçoeiro num solavanco faz meu corpo quase despencar. Se não fossem minhas ágeis mãos…

Foi instinto, reflexo. Meus pés não mais suportaram e desabaram da corda. Mas por instinto, por reflexo eu me agarrei em algo. Não imaginei o que era. Não conseguia imaginar o que era. Mas estava logo ali, entre meus dedos, cravado no limiar entre o pensamento inartístico e o real metafórico. Minha curiosidade de saber o que era aquela peça tão forte a ponto de me segurar e tão fantasiosa a ponto de se cravar no nada absoluto era intensa. Sabia, pelo tato, que era algo rígido, não muito áspero, nem muito liso, de formato octogonal. Tinha medo de abrir os olhos e despencar. Pois no fundo, eu sabia que o que estava me segurando… Digo, o que eu estava segurando era algo que estava muito mais no plano das idéias.

Então parei! Percebi finalmente o que era e… parei! Meu medo havia ido embora por completo; meu arrojo pueril se foi, e dele ficou a certeza de que não havia sido em vão. O medo de cair daquele mundo, confortável e colorido com a mesma paleta de cores de Van Gogh, fora tão grande que me fizera segurar em coisas pequenas, como o tal objeto octogonal. Então, respirei fundo, e fui soltando dedo por dedo. A cada destoque sentia-me inflar de prazer. A cada dedo que saía me sentia livre. Porque sabia que o mundo onde iria cair era apenas mais uma de minhas fantasias. E que havia me segurado na realidade mais artística que um dia conheceria…