A busca era inútil, o que lhe restava era apenas aquela noite. O marido só queria lhe deixar uma boa lembrança no lugar das noites solitárias antes de partir. Mas mesmo assim, todos os dias antes de dormir, tomava um banho demorado, escovava os cabelos, se perfumava, e vestia uma linda camisola. Nos primeiros dias, não conseguiu se concentrar na sua leitura noturna, pois seus ouvidos estavam sempre atentos a qualquer som. Os únicos sons, porém, eram sempre o de sua respiração, o de seu coração batendo, o de sua memória trazendo lembranças.
Como não tiveram filhos e seus amigos eram os deles, nunca mais recebeu visitas. Sua companhia era a dos empregados, que um certo dia resolveu dispensar. Acordou pela manhã, se arrumou como há muito não fazia. Desceu até a cozinha, o que fez a governanta se assustar, porque raramente tinha visto a patroa por ali e ainda tão arrumada – nos últimos meses, trajava apenas um robe sobre a camisola. Com a educação costumeira, pediu para que ela chamasse os demais empregados porque gostaria de conversar com eles.
Todos da sala de estar. Ela os comunicou que não precisaria mais de ninguém. Todos estavam dispensados, mas não precisavam se preocupar, pois pagaria, além dos direitos reservados, um mês de pagamento a mais; e finalizou pedindo para que o último que saísse trancasse a porta sem se preocupar com a chave.
1 Comentário
Agosto 14, 2008 às 1:41 am
[...] About “a última noite” – parte 5k [...]