Tramitar por bienais e exposições de “Arte recente” – aquela recém-saída do forno, para não nos prendermos em rótulos de correntes artísticas – é como sonhar acordado. Literalmente falando. Vê-se de tudo acontecer: formas amorfas ganham vida em uma mescla de cores surrealmente irreais; o lixo vira luxo sem se travestir de luxúria; o belo se desbela e interage com o público! E este sai sem entender nada, mas saciado de cultura. Ergue as sobrancelhas enquanto devora os folhetos-explicativos e raramente comenta algo. Se algum inculto admoesta que não compreende a grandeza da obra à sua frente, a resposta vem excruciante e veloz: “a Arte foi feita para ser sentida, não entendida”.
Sob este mote erguemos décadas de labor artístico e enchemos museus mundo afora. Vil é aquele que busca um sentido para um quadro, que deseja significado nos versos brancos do poema que lê. Basta sentir as pinceladas, mesmo que o conjunto delas forme um desenho disforme – ou quiçá multiforme – que você poderia reproduzir jogando um punhado de tintas para o alto (mas sem a grandiosidade do artista em questão!). Basta deixar-se levar pela cadência pungente das palavras ditas que não dizem nada. E quem tenta entender não entende de fato a Arte.
Essa verdade absoluta legitima – e força goela abaixo – qualquer tipo de devaneio pseudo-artístico. Torna a busca pelo Belo um exercício onírico de auto-sensação, no qual a mínima interferência do cérebro rui o nirvana criativo. Vai extraindo-se, assim, a famigerada técnica, buscando romper com a barreira do consciente que impõe ordem ao que supostamente deve ser caótico. No limite seca a Arte de si própria, criando músicas sem notas, quadros sem pinceladas e poemas sem palavras.
Precisamos sim entender a Arte. Porém, que tenhamos aprendido um pouco com a nossa Filosofia e não creiamos que seja apenas isto, que devamos apenas entender e ponto final. É preciso criar-se a coragem para desconstruir este sofisma por completo, ultrapassando a barreira da dicotomia “emoção-razão” e indo além. A lógica platônica não deve ser posta em prática aqui, pois ela só sabe apontar ou para as sombras ou para o corpo que as produz: ambos co-existem.
Ao longo da História da Arte já rompemos inúmeros paradigmas, derrubamos preconceitos, revolucionamos. Aprendemos que não há certo ou errado, mas sim diferentes perspectivas, diferentes espaços-tempos. E destarte, nos permitimos criar livremente. Livre até onde este dogma nos permite ir.
Bruno Miquelino
2 Comentários
Julho 9, 2008 às 9:03 am
Bem legal seu artigo Bru! Realmente, tem muita arte por aí que na ânsia de ser arte acaba não significando nada. Continue assim! Estou de olho para ver seus outros artigos
Setembro 8, 2008 às 2:52 am
[...] ao visitar a exposição do Itaú, e o expressou no nosso blog (quase nunca atualizado) literatura em comum. Após visitar as duas exposições, entendi o que o Bruno, e muitas outras pessoas sentiram ao se [...]