Julho 9, 2008...2:40 am

Sinto entender…

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Tramitar por bienais e exposições de “Arte recente” – aquela recém-saída do forno, para não nos prendermos em rótulos de correntes artísticas – é como sonhar acordado. Literalmente falando. Vê-se de tudo acontecer: formas amorfas ganham vida em uma mescla de cores surrealmente irreais; o lixo vira luxo sem se travestir de luxúria; o belo se desbela e interage com o público! E este sai sem entender nada, mas saciado de cultura. Ergue as sobrancelhas enquanto devora os folhetos-explicativos e raramente comenta algo. Se algum inculto admoesta que não compreende a grandeza da obra à sua frente, a resposta vem excruciante e veloz: “a Arte foi feita para ser sentida, não entendida”.

Sob este mote erguemos décadas de labor artístico e enchemos museus mundo afora. Vil é aquele que busca um sentido para um quadro, que deseja significado nos versos brancos do poema que lê. Basta sentir as pinceladas, mesmo que o conjunto delas forme um desenho disforme – ou quiçá multiforme – que você poderia reproduzir jogando um punhado de tintas para o alto (mas sem a grandiosidade do artista em questão!). Basta deixar-se levar pela cadência pungente das palavras ditas que não dizem nada. E quem tenta entender não entende de fato a Arte.

Essa verdade absoluta legitima – e força goela abaixo – qualquer tipo de devaneio pseudo-artístico. Torna a busca pelo Belo um exercício onírico de auto-sensação, no qual a mínima interferência do cérebro rui o nirvana criativo. Vai extraindo-se, assim, a famigerada técnica, buscando romper com a barreira do consciente que impõe ordem ao que supostamente deve ser caótico. No limite seca a Arte de si própria, criando músicas sem notas, quadros sem pinceladas e poemas sem palavras.

Precisamos sim entender a Arte. Porém, que tenhamos aprendido um pouco com a nossa Filosofia e não creiamos que seja apenas isto, que devamos apenas entender e ponto final. É preciso criar-se a coragem para desconstruir este sofisma por completo, ultrapassando a barreira da dicotomia “emoção-razão” e indo além. A lógica platônica não deve ser posta em prática aqui, pois ela só sabe apontar ou para as sombras ou para o corpo que as produz: ambos co-existem.

Ao longo da História da Arte já rompemos inúmeros paradigmas, derrubamos preconceitos, revolucionamos. Aprendemos que não há certo ou errado, mas sim diferentes perspectivas, diferentes espaços-tempos. E destarte, nos permitimos criar livremente. Livre até onde este dogma nos permite ir.

Bruno Miquelino

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