Julho 8, 2008...1:53 am

a c o r d a r t e

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por K. Sérgio Gomes e Bruno Miquelino

Quanto mais eu penso, mais ideal o mundo fica, e mais longe fico dele. É como uma equilibrista. Pensando, subo os degraus da escada que me leva ao topo; e quando abro os olhos, me vejo na corda bamba. Ao olhar para baixo, vejo aquele mundo real, ou irreal, sendo distorcido pelo vento forte, que balança a corda, a fim de me tirar da fantasia. A cada balançada temo o chão sombrio abaixo de mim. Estico meus braços, procuro equilíbrio, sinto um temor com sabor de prazer ousado inundar meu corpo. A corda balança violentamente como um touro selvagem querendo expulsar seu inimigo de cima de seu lombo. Agarro-me na beleza do mundo que tenho sobre minha cabeça, infinito ante meu tamanho; porém a cada degrau a corda afina-se e o vento irrita-se e desafia-me.

Fecho os olhos. Forte. Cada passo tem que ser metricamente calculado, dado com veemência e delicadeza. Com os olhos fechados, só vejo o fim da corda. Ali, a possibilidade de um mergulho num mundo onde a juventude não precisará de um quadro para se eternizar. O tempo passará ao meu comando, devagar nos bons momentos e veloz nos que não me agradarem. Oououuouououohhhhhhhhhhhh. O vento traiçoeiro num solavanco faz meu corpo quase despencar. Se não fossem minhas ágeis mãos…

Foi instinto, reflexo. Meus pés não mais suportaram e desabaram da corda. Mas por instinto, por reflexo eu me agarrei em algo. Não imaginei o que era. Não conseguia imaginar o que era. Mas estava logo ali, entre meus dedos, cravado no limiar entre o pensamento inartístico e o real metafórico. Minha curiosidade de saber o que era aquela peça tão forte a ponto de me segurar e tão fantasiosa a ponto de se cravar no nada absoluto era intensa. Sabia, pelo tato, que era algo rígido, não muito áspero, nem muito liso, de formato octogonal. Tinha medo de abrir os olhos e despencar. Pois no fundo, eu sabia que o que estava me segurando… Digo, o que eu estava segurando era algo que estava muito mais no plano das idéias.

Então parei! Percebi finalmente o que era e… parei! Meu medo havia ido embora por completo; meu arrojo pueril se foi, e dele ficou a certeza de que não havia sido em vão. O medo de cair daquele mundo, confortável e colorido com a mesma paleta de cores de Van Gogh, fora tão grande que me fizera segurar em coisas pequenas, como o tal objeto octogonal. Então, respirei fundo, e fui soltando dedo por dedo. A cada destoque sentia-me inflar de prazer. A cada dedo que saía me sentia livre. Porque sabia que o mundo onde iria cair era apenas mais uma de minhas fantasias. E que havia me segurado na realidade mais artística que um dia conheceria…

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