estou morrendo. há 22 anos. estou morrendo. já enterrei uma criança solitária que queria ser bailarina. uma tentativa de adolescente que aspirava ser a fátima bernardes. agora estou no velório de uma universitária.
agosto 14, 2008
“divórcio de amor” ou “a última noite”
Nos próximos posts você acompanhará uma história que poderá decidir qual caminho seguir. É um conto escrito a duas e a quatro mãos. O começo é o mesmo, a continuação é como aquele programa antigo da TV Globo, você decide.
agosto 14, 2008
“divórcio de amor” ou “a última noite” – parte 1
Na próxima semana completariam 34 anos de casados. Há pelo menos 10 o marido não a procurava mais. Mas, mesmo assim, naquela noite tomou um banho demorado, escovou os cabelos, se perfumou, e vestiu uma linda camisola de seda branca.
Quando chegou ao leito, a cama estava vazia, e gelada, como todos os dias dos últimos anos. Acendeu o abajur e começou a ler, esperando o sono chegar. A leitura avançava e nem um sinal de cansaço, ou do marido – aquela noite, provavelmente, seria mais uma de insônia e solidão. Compenetrada no encontro amoroso entre Anna Karenina e o Conde Alexei Vronsky, começou a ouvir os acordes do piano na sala de música.
Ah, aquela música… Aquela música que ela o ouvira tocar quando o viu pela primeira vez. Aquela música que a fez abandonar a brilhante carreira de cantora, que teria pela frente, para se dedicar a ele. À carreira dele.
parte 2b ou parte 2k
agosto 14, 2008
“Divórcio de amor” – parte 2b
De súbito, seu ombro foi tocado. Gritou instintivamente, virando-se e quase caindo. Seu corpo fora seguro pelos braços ainda fortes daquela belíssima imagem à sua frente: a de seu marido. Era o mesmo cabelo escasso cor de prata, em contraste com a pele mal-tratada pelo tempo, ambos exalando um aroma cítrico que lhe aguçava a memória. Era o mesmo perfume de quando se conheceram! Era como se 34 anos não houvessem passado e o passado fosse imortal naquele déjà vu libertino.
Aquela boca de tantas palavras sedutoras abriu-se, porém pôs-se muda. Aproximou-se lentamente de seu rosto, seu hálito acariciando delicadamente sua pele. Estacou a poucos centímetros do toque, fazendo tremer de desejo seus lábios úmidos. Com um suave movimento, a boca traquina abraçou seu lábio inferior. Tão já a língua de seu homem puxou a sua para bailar, primeira valsa daquela noite.
agosto 14, 2008
“a última noite” – parte 2k
parte 1
Dobrou, então, delicadamente o cantinho da página, fechou o livro e o colocou na mesinha de cabeceira. Calçou os chinelos almofadados, vestiu o robe, que combinava com a camisola, e seguiu as notas do piano.
Na sala de música, para apreciar melhor a cena que se revelava, recostou-se no beiral da porta, cruzou os braços e ficou ali eternizando o momento. A música era a mesma de quase quarenta anos atrás, e o homem, quase o mesmo. Os cabelos não tinham o mesmo volume de quando eram rigorosamente ajeitados com brilhantina, e o colarinho já não estava engomado. Os poucos fios pareciam ter sido penteados ao sabor do vento, os primeiros botões da camisa estavam abertos e as mangas arregaçadas. Mas os gestos no piano eram deliciosamente os mesmos.
Absorta pela música e pela atuação daquele homem ao piano, despertou do transe quando ele fez um gesto com a cabeça – sem para de tocar – para que se aproximasse. Lentamente, foi. Sentada ao seu lado, aproximou o rosto à procura da felicidade alcoólica. Mas o marido alcançou seus lábios e a beijou. Beijaram-se como a mesma paixão de quando jovens. O que a fez desistir da investigação e se render àquele momento. Deitou a cabeça no ombro dele, observando seus dedos ágeis nas teclas, fechou os olhos e cantou:
“In love with the night mysterious
The night when you first were there
In love with my joy delirious
When I knew that you could care.”
parte 3b ou parte 3k
agosto 14, 2008
“Divórcio de amor” – parte 3b
Seu corpo escorregou para os braços de seu primeiro namorado, deixando-se deslizar dedicado aos lençóis ainda gelados. Como feras, mordiam-se de leve; e sem pressa, beijavam-se de maneira breve, lábios e pele unindo-se na devassidão da paixão. Era novamente dele, amante; seu suor vicejante em sua camisola expunha o perfume do mais lascivo amor. Foram um. E dormiram como um.
Ao acordar sentiu seu braço frio, agarrado à cama vazia. Por um minuto, levantou a possibilidade de ter sonhado. Mas ao olhar o seu corpo nu sob o lençol, voltou à realidade. Ainda deitada sentiu o forte aroma de café. Vestiu-se com pressa e desceu a escada com passos rápidos. Na sala de jantar a mesa estava posta, mas apenas com um lugar. Ainda desorientada, uma de suas empregadas apareceu e lhe entregou um bilhete. Estava em um envelope carmim, sem remetente ou destinatário. Abriu-o de maneira convulsiva e seus olhos puseram-se a correr audazes as trilhas de caneta, em boa caligrafia:
agosto 14, 2008
“a última noite” – parte 3k
parte 2b ou parte 2k
Terminaram a canção. Ele a olhou intensamente, levantou-se do piano e pegou-a no colo. Assustou-se com o ato. Mas não disse nada. Rendida naqueles braços, contornava o rosto com o olhar dele. Os perfeitos 45 graus do nariz; os olhos sempre com aquele mesmo brilho de quando tinha 20 anos; as marcas que surgiram com os anos; e a cicatriz do lado direito da testa, que ganhou em uma briga na casa de shows por causa de um atrevido que tentou se engraçar com ela. Amava aquela cicatriz. Considerava aquela marca um registro de que, aquele homem, era dela, por mais que tivesse outras mulheres. Essas outras teriam aturar sua marca. E ele, toda vez que se olhasse no espelho, se lembraria dela. Sentia-se unida eternamente ao marido por aquele leve sulco na testa.
Chegaram ao quarto. Ele a deitou vagarosamente na cama, acariciou-lhe o rosto, aproximou-se lentamente de seu rosto, seu hálito acariciando delicadamente sua pele. Estacou a poucos centímetros do toque, fazendo tremer de desejo seus lábios úmidos. Lentamente se pôs de pé, começou a desabotoar lentamente os botões da camisa. Então, ela saiu da passividade e foi ajudá-lo a fazer aquela noite.
Amaram-se com todo o vigor da primeira vez e com toda experiência das que seguiram durante os mais de 30 anos de casamento. Durante toda a noite não trocaram qualquer palavra. Os gestos falavam por si, se entendiam pelo silêncio. Dormiram abraçados – ela encostada no peito dele, enquanto ele acariciava os seus cabelos.
agosto 14, 2008
“Divórcio de amor” – parte 4b
“Querida,
Estou pedindo o divórcio. Não suporto mais o som excruciante de teu demorado banho, seguido pelo escovar de teus cabelos e pelo borrifar de teu melhor perfume. Tua camisola pudicamente branca me faz infeliz ao saber que deito todos os dias ao teu lado e durmo. Durmo, como o homem cansado que sou. Durmo, como o poeta em mim o faz.
Quero separar-me deste casamento frio que temos. Quero perder-me no impudico sabor de uma mulher e sem ter que me preocupar com nada, clamar alto por este fervor e lamber e morder e amar esta mulher abrasada! Quero acariciar e ser acariciado. Só.
Por isso quero o divórcio de ti. Quero divorciar-me desta união que nos separou e atar-me à mulher que realmente amo: você. Quero ser teu amante, vivenciando a cada noite nossa primeira – e última – noite; quero ser teu amigo, contando-te sem pudor meus anseios e desejos; quero ser teu, verdadeiramente teu, todos os dias. Divorciado das vicissitudes humanas e casado com o romance sincero do toque de nossos lábios.
Te amo.
P.S. O pianista era um amigo do trabalho, que sabe apenas tocar uma canção!”
agosto 14, 2008
“a última noite” – parte 4k
parte 3b ou parte 3k
Ao acordar passou a mão pelo lado esquerdo da cama e o notou vazio. Por um minuto, levantou a possibilidade de ter sonhado. Mas ao olhar o seu corpo nu sob o lençol, voltou a realidade. Ainda deitada sentiu o forte aroma de café. Vestiu-se com pressa e desceu a escada com passos rápidos. Na sala de jantar a mesa estava posta, mas apenas com lugar. Ainda desorientada, uma de suas empregadas apareceu e lhe entregou um bilhete.
“Desculpe por tudo. Levarei sempre comigo esta última noite. Amo-te.
Seu, inteiramente seu
M.”
Não teria se espantado se isso estive acontecido antes. Mas depois daquela noite, por quê? Pediu para que retirassem a mesa, pois não tinha vontade de desjejuar. Voltou para o quarto, examinou a cama ainda desfeita a procura de algum resquício, que lhe desse uma dica do porquê do ato marido. Nada. Passando a mão pelos lençóis só achava a felicidade sentida naquela noite. Abriu a janela para ver se a luz do sol revelaria alguma coisa. Nada. O brilho do astro, só a fazia se lembrar do brilho dos olhos dele fitando-a.
agosto 14, 2008
“a última noite” – parte 5k
A busca era inútil, o que lhe restava era apenas aquela noite. O marido só queria lhe deixar uma boa lembrança no lugar das noites solitárias antes de partir. Mas mesmo assim, todos os dias antes de dormir, tomava um banho demorado, escovava os cabelos, se perfumava, e vestia uma linda camisola. Nos primeiros dias, não conseguiu se concentrar na sua leitura noturna, pois seus ouvidos estavam sempre atentos a qualquer som. Os únicos sons, porém, eram sempre o de sua respiração, o de seu coração batendo, o de sua memória trazendo lembranças.
Como não tiveram filhos e seus amigos eram os deles, nunca mais recebeu visitas. Sua companhia era a dos empregados, que um certo dia resolveu dispensar. Acordou pela manhã, se arrumou como há muito não fazia. Desceu até a cozinha, o que fez a governanta se assustar, porque raramente tinha visto a patroa por ali e ainda tão arrumada – nos últimos meses, trajava apenas um robe sobre a camisola. Com a educação costumeira, pediu para que ela chamasse os demais empregados porque gostaria de conversar com eles.
Todos da sala de estar. Ela os comunicou que não precisaria mais de ninguém. Todos estavam dispensados, mas não precisavam se preocupar, pois pagaria, além dos direitos reservados, um mês de pagamento a mais; e finalizou pedindo para que o último que saísse trancasse a porta sem se preocupar com a chave.